Eu só queria comer um pedaço de bolo
de maracujá com uma bola de sorvete de papaia com cassis. Mas não tem bolo. Uma
vontade de comer o bombom guardado no congelador, mas é o último. Se eu comer
vai acabar.
Tenho uma coisa com as últimas coisas.
Eu sempre as guardo. Não quero que acabem. Até aquelas fáceis de repor. Às
vezes eu compro outra quando está na metade para o fim. Ou já compro duas para
garantir. É, eu tenho essa coisa de não querer que acabe mesmo. De não querer
ficar sem. É muito ruim precisar (ou querer?) e não ter. Mas isso não significa
que eu não saiba passar sem. Saber eu sei. Eu só não quero.
Eu já sei que ninguém morre se o
hidratante corporal acabar de manhã e você só puder comprar outro no final do
expediente. Dá para pegar emprestado com a mãe ou improvisar de outra forma. Ficar
sem ele pode até ficar um pouco feio, mas morrer ninguém morre. Nesse caso,
pele ressecada não é mortal. Como tantas outras faltas que não matam. Nem
desgastam tanto. Mas a gente se desgasta um tanto para não faltarem. Não é?
Não são coisas dispensáveis.
Precisamos delas de verdade. Não essenciais, mas muito úteis. Não supérfluas e
nem vitais. Apenas são nossas coisas normais da vida.
Igual ao sorvete de abacaxi ao vinho
com rosquinhas tão bom quanto bolo com sorvete (alguém aceita?). E foi bom
também o creme de leite adoçado com mel (eu gosto, uai!). E a vida segue e a
gente mata a vontade de doce e se refresca do calor da mesma forma. E agradece
a Deus por tantas opções no congelador e no armário.
E tantas boas e simples opções na/da
vida.
E penso que é até certo ponto legítimo
nos apegarmos a alguns mimos. Detalhes que deixam a vida mais alegrinha. A
questão é aprender a identificá-los sempre como presentes. Com os quais é bom
viver, mas podemos passar sem eles.
Não que eu seja uma pessoa mimada. E
também não sou ingrata. Mas aquele sentimento de que falta algo, que ainda não
cheguei lá é sufocante. Dói muito. É uma dor forte, que a gente só identifica
depois de um dia ou dois (ou mais) de coração apertado. Aquele olhar no sonho
que ainda não se realizou cega a visão de todos nossos troféus e medalhas na
estante da vida.
Por isso é bom ter diários ou qualquer
caderno de registro. Ou álbum, mural de fotos. Conversas com pessoas queridas.
Para relembrar que já realizamos muitos e muitos sonhos.
E desfrutar bastante de um sonho
realizado. Alegrar e cuidar não pelo medo de perder. Mas como dádiva. Pensar em
quanto esperamos e agradecer sempre porque o tempo da espera acabou. E depois
que passa, a espera parece ter sido tão pequena.
Mas durante a espera, ela parece-nos a
mais estendida de todas. Que tempo que
não passa! Que sofrimento que nunca acaba! Que sonho que nunca chega!
Contudo, há dádivas que só existem
durante a espera. O dinheiro que “sobra” por não ter que pagar tal parcela. Não
se preocupar em perder. O sair sem dar satisfações. O tempo livre gasto como
quiser. O tempo livre... ter tempo livre é uma bênção! Não ter que preocupar
com certas responsabilidades também é.
Por isso é importante esperar com
calma. Sem teimosia para diminuir o tempo de espera. Sem atropelamentos. Com a
Graça de aplacar a ansiedade. Para que um sonho realizado seja desfrutado como
um presente, em que as responsabilidades são cumpridas em paz, e não fardos de
algo teimosamente realizado.
Para a vida a gratidão é uma grande
aliada. Ajuda-nos a ajustar o foco. Conseguimos enxergar o que ainda não temos
e lutar para ter, sem murmurações. Não nos tira a criticidade, mas não nos
torna resmungões.
Porque é bom conversar com quem
consegue perceber os desafios da vida, os problemas sociais, as inconformidades
que nos doem.
Mas insuportável conviver com resmungões
crônicos.
E tudo na vida é treino. Ninguém está
a salvo. Tendemos sempre aos extremos. Mas equilíbrio é algo alcançável para
quem quer. Um dia a gente resmunga insuportavelmente até para nós mesmos.
Noutro, nossa felicidade causa estranheza. Entre um e outro, a gente aprende a se
equilibrar nessa corda esticada que se chama vida.
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