quinta-feira, 1 de novembro de 2012

5. Passar vontade faz bem também


Eu só queria comer um pedaço de bolo de maracujá com uma bola de sorvete de papaia com cassis. Mas não tem bolo. Uma vontade de comer o bombom guardado no congelador, mas é o último. Se eu comer vai acabar.
Tenho uma coisa com as últimas coisas. Eu sempre as guardo. Não quero que acabem. Até aquelas fáceis de repor. Às vezes eu compro outra quando está na metade para o fim. Ou já compro duas para garantir. É, eu tenho essa coisa de não querer que acabe mesmo. De não querer ficar sem. É muito ruim precisar (ou querer?) e não ter. Mas isso não significa que eu não saiba passar sem. Saber eu sei. Eu só não quero.
Eu já sei que ninguém morre se o hidratante corporal acabar de manhã e você só puder comprar outro no final do expediente. Dá para pegar emprestado com a mãe ou improvisar de outra forma. Ficar sem ele pode até ficar um pouco feio, mas morrer ninguém morre. Nesse caso, pele ressecada não é mortal. Como tantas outras faltas que não matam. Nem desgastam tanto. Mas a gente se desgasta um tanto para não faltarem. Não é?
Não são coisas dispensáveis. Precisamos delas de verdade. Não essenciais, mas muito úteis. Não supérfluas e nem vitais. Apenas são nossas coisas normais da vida.
Igual ao sorvete de abacaxi ao vinho com rosquinhas tão bom quanto bolo com sorvete (alguém aceita?). E foi bom também o creme de leite adoçado com mel (eu gosto, uai!). E a vida segue e a gente mata a vontade de doce e se refresca do calor da mesma forma. E agradece a Deus por tantas opções no congelador e no armário.
E tantas boas e simples opções na/da vida.
E penso que é até certo ponto legítimo nos apegarmos a alguns mimos. Detalhes que deixam a vida mais alegrinha. A questão é aprender a identificá-los sempre como presentes. Com os quais é bom viver, mas podemos passar sem eles.
Não que eu seja uma pessoa mimada. E também não sou ingrata. Mas aquele sentimento de que falta algo, que ainda não cheguei lá é sufocante. Dói muito. É uma dor forte, que a gente só identifica depois de um dia ou dois (ou mais) de coração apertado. Aquele olhar no sonho que ainda não se realizou cega a visão de todos nossos troféus e medalhas na estante da vida.
Por isso é bom ter diários ou qualquer caderno de registro. Ou álbum, mural de fotos. Conversas com pessoas queridas. Para relembrar que já realizamos muitos e muitos sonhos.
E desfrutar bastante de um sonho realizado. Alegrar e cuidar não pelo medo de perder. Mas como dádiva. Pensar em quanto esperamos e agradecer sempre porque o tempo da espera acabou. E depois que passa, a espera parece ter sido tão pequena.
Mas durante a espera, ela parece-nos a mais estendida de todas.  Que tempo que não passa! Que sofrimento que nunca acaba! Que sonho que nunca chega!
Contudo, há dádivas que só existem durante a espera. O dinheiro que “sobra” por não ter que pagar tal parcela. Não se preocupar em perder. O sair sem dar satisfações. O tempo livre gasto como quiser. O tempo livre... ter tempo livre é uma bênção! Não ter que preocupar com certas responsabilidades também é.
Por isso é importante esperar com calma. Sem teimosia para diminuir o tempo de espera. Sem atropelamentos. Com a Graça de aplacar a ansiedade. Para que um sonho realizado seja desfrutado como um presente, em que as responsabilidades são cumpridas em paz, e não fardos de algo teimosamente realizado.
Para a vida a gratidão é uma grande aliada. Ajuda-nos a ajustar o foco. Conseguimos enxergar o que ainda não temos e lutar para ter, sem murmurações. Não nos tira a criticidade, mas não nos torna resmungões.
Porque é bom conversar com quem consegue perceber os desafios da vida, os problemas sociais, as inconformidades que nos doem.
Mas insuportável conviver com resmungões crônicos.
E tudo na vida é treino. Ninguém está a salvo. Tendemos sempre aos extremos. Mas equilíbrio é algo alcançável para quem quer. Um dia a gente resmunga insuportavelmente até para nós mesmos. Noutro, nossa felicidade causa estranheza. Entre um e outro, a gente aprende a se equilibrar nessa corda esticada que se chama vida.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

3. Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais



É um fardo muito pesado levar as pessoas sempre muito a sério. Acreditar sempre em tudo que elas nos dizem. Principalmente aqueles a quem mais amamos, donos das palavras que mais nos pesam e interferem nas nossas vidas. É uma grande prova de amor não levar tão a sério quem nós seriamente amamos.

Muito arriscado levar tudo muito a sério. Pode ser prejudicial aos relacionamentos. Simplesmente pela vulnerabilidade humana, que vez ou outra se apodera de nós e como reféns, prometemos, planejamos, afirmamos e um dia tá lá o inverso. Ele mesmo. Envergonhando-nos, desmascarando-nos, dando razão aos que nos avisaram, que nos falaram.

Devemos levar a sério sim o que nos dizem, mas nem sempre. Não tem a ver com desconfiança. Tem mais a ver com relevar. Entender. Porque nem sempre que se diz algo e faz outro é por mentira. Paga-se a língua, ou a opinião muda, percebe-se que o inverso é bem melhor. Não havia mentira naquele momento da afirmação. Foi algo dito de coração, de verdade, mas que teve que ser contrariado.

E às vezes é mentira mesmo. Daquelas que o mentiroso tenta convencer até a si próprio, ainda que no fundo ele saiba que não é bem assim. Mas luta para que dê tempo de um dia ser verdade, antes que seja descoberto.

E há os que dolosamente mentem. Porque a verdade é grande demais para ser exposta e covardemente escolhe-se a mentira. Ou por desdém, sabe o “quem desdenha quer comprar”? Então. É só uma tentativa manipuladora de conseguir o que se quer.

Algumas mentiras nos passam despercebidas. Outras, fáceis ou não, detectamos. Isso depende também do emissor. Algumas pessoas nos encabulam como parecem ser as únicas que acreditam nas próprias mentiras e promessas.

Mas tem gente que a gente releva. Por amor, com o mesmo que nos amamos. E essa é a primeira regra para conseguir não levar sempre muito a sério os que amamos: não nos levar também. Porque sabemos de quantos perdões precisamos pelos nossos inversos.

Por isso não devemos nem animar demais com as mais doces promessas. E nem achar que é o fim de tudo a não demonstração de um sentimento. O melhor é administrar bem nossas expectativas. Para não cair em alguma conversa mole. Nem descartar rapidamente os indícios.

Cansativo demais tentar sempre saber, ter certeza em tudo, porque é impossível.

Acreditar aqui. Desconfiar ali. Investigar às vezes. Errar ou acertar acolá. Nem sempre vai fazer sentido. E as surpresas nem sempre serão desagradáveis. Pedir a Deus que não. E as que forem que saibamos aprender com elas. E  viver. Mas nem a vida podemos levar tããão a sério assim!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

2. Acho que encontrei um novo amor, mas ainda estou pensando a respeito.

Eu nunca fui contra animais, mas não muito apegada e contra maltratá-los. Sempre achei que criar um de qualquer jeito equivale a maus tratos. Porque além de alimentação, cuidados com a saúde, limpeza e tudo o mais, o que eu sempre acreditei ser fundamental é o amor, carinho. Sem tempo para passear, brincar, fazer cafuné, conversar e ensiná-los, é o mesmo que pai que separa e quer compensar o filho com brinquedos e presentes. Mas sempre planejei ter um cachorro ou gato, ou algum outro bicho que me ganhasse o coração. Um dia... Quando eu crescer e tiver minha própria casa.

Na casa em que moro – a dos meus pais - sempre tivemos cachorros. E um deles até foi meu. Mikey, um vira-lata lindo. E outros vários. Mas sempre cachorros grandes. Criados lá e a gente cá. Mais como cães de guarda.

Prefiro crianças, eu sempre disse. E quem me conhece, sabe que prefiro mesmo, como me derreto por elas e me entrego.

Mas eu fui pega por esse amor parecido. E me senti bem. Achei gostoso passar a manhã lendo com aquela coisinha quente e fofa no meu colo, sentindo o seu coraçãozinho bater na minha perna. A fragilidade, a esperteza, peraltices e a necessidade de limites. Vi o amor de um amigo e seus três cachorros e isso mexeu comigo. Fez-me pensar mais a respeito.

E quem diria que agora eu estaria assim:

Não, eu não comprei um cachorro para mim. Essa ai está só de passagem. E não acho que foi coincidência Sofia (finalmente meu pai escolhei um nome que me agradou. A intenção dele é Sophia Loren, mas por mim, será Sofia) chegar aqui em casa bem nesta semana que estou fragilizada por esse amor por bichos.

Ela vai para o nosso sítio, diz ele. Mas ontem estava indeciso se vai mesmo. É que ela é tão bonitinha. E Diana a aceitou tão bem... Mas minha mãe já disse que duas nem pensar! E eu entendo a decisão dela. Mas dessa vez não disse nada, estou só pensando a respeito.

Eu continuo achando que cachorros dão muito trabalho. E também um exagero cachorro dormir na cama com o casal – ainda que respeito muito quem goste. Tenho medo de Diana qualquer hora me abocanhar. Ela é grandona, mas é tão tranquila e educada (que Deus assim conserve! rs). Ainda não concordo com quem trata bicho melhor que gente, mas entendo as carências, e dificuldades dos relacionamentos interpessoais que às vezes provocam isso.

Mas eu não consigo levantar para acabar o almoço. Acho que Sofia está sonhando e não queria atrapalhar...

Eita, esta sou eu mesmo? rs. Sou sim, a mesminha, mas diferente. E com fome. Elas também devem estar. Vou cuidar disso e continuar pensando a respeito. Se é um novo amor e vai durar eu não sei. Nem me preocupa. Mas sei que não demora e Sofia deixará de ser esse trenzinho pequeno, frágil e fofo. Aqui não vai ter mesmo espaço para as duas. Melhor curti-la enquanto é tempo.

Então eu penso que posso amar Diana, mesmo grandona. De um jeito que eu vou encontrar. Mas não tenho certeza de nada. Só estou pensando a respeito.

domingo, 24 de junho de 2012

1. Que no fundo é simples ser feliz


Será que quando eu for feliz eu vou saber? Vou ter consciência disso? E como será? O que terá acontecido para que eu tenha enfim conseguido ser feliz? Com quem e onde estarei? Como serei? Quanto ganharei e o que terei? Será que eu saberei? Será daqui a quantos anos?

Será que hoje eu sei?

Sei quando fui mais feliz, as tantas vezes, os tantos sorrisos.  Mas eu não sabia muitas vezes. Tão ocupada sendo feliz, nem dava tempo de me dar conta.  Até que chegou no agora. Com partes iguais e diferentes de como eu achava que deveria ser.  E o sorriso que brota despercebido só de lembrar.

Dá para olhar para trás e medir e pontuar. Para frente... bem, pode ser menor ou maior do que imagino. Mas o único ponto que enxergo é este. Agora. E sou feliz. Mesmo sabendo das tristezas e faltas. A gente só sabe que é feliz depois que foi. Apego-me fortemente ao que me faz sorrir, para marcar minha memória, amanhã ou depois me lembrar de hoje feliz.

Porque hoje eu tenho tanto e preciso cada vez de menos para ser feliz.